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Quarenta e três maios entre Lorena e Cotia

Na 75ª Festa da Congada de São Benedito, o Moçambique de Lorena completou 43 anos de jornada à Vila São Joaquim e foi recebido com o calor que só a irmandade na fé sabe oferecer


Choveu em Cotia no domingo, 17 de maio de 2026. Choveu fino, daquele jeito que molha sem encharcar, que esfria sem desanimar. E foi sob esse céu carregado, num pátio da Vila São Joaquim que já guarda décadas de memória moçambiqueira, que o Moçambique de São Benedito de Lorena chegou para mais uma vez cumprir compromisso com a 75ª Festa da Congada de São Benedito, jornada que o grupo refaz desde 1983.


Quarenta e três anos. É esse o tempo que o terno de Lorena leva ida e volta para Cotia, atravessando a Serra, descendo do Vale do Paraíba até o planalto, em devoção ao mesmo santo preto que recebe ali, naquela festa fundada em 1951 por Benedito Pereira de Castro, o saudoso Seu Dito da Congada. Nascido em São Luiz do Paraitinga, Seu Dito trouxe consigo, para os arredores de Cotia, a manifestação que aprendera com os velhos do Vale, herdeira direta das celebrações de abolição que pulsavam entre Cunha, Lorena, Guaratinguetá e Aparecida desde os anos seguintes ao 13 de maio de 1888. Quando Seu Dito faleceu em 2016, a família, os amigos e a comunidade não deixaram o mastro cair. Pegaram a bandeira, ergueram-na de novo, e a festa seguiu.



Este ano, a Festa da Congada aconteceu nos dias 15, 16 e 17 de maio, reunindo grupos folclóricos de várias regiões, devotos, pesquisadores e curiosos numa programação que misturou apresentações culturais, shows musicais e os atos devocionais que dão sentido a tudo. Os ternos foram chegando, cada um com sua cor, seu compasso, sua história. E quando coube ao Moçambique de Lorena ocupar o terreiro, no domingo, a chuva continuava caindo. Não importou. Os bastões bateram. As caixas roncaram. A bandeira foi erguida. E os versos saíram, como sempre saem, do fundo do peito de quem aprendeu a cantar São Benedito antes mesmo de aprender a ler.


A acolhida de Cotia foi, como tem sido há mais de quatro décadas, marcada pelo cuidado. A organização da festa disponibilizou ônibus adequado para o transporte dos integrantes desde Lorena, garantiu alimentação para todos os dançantes, caixeiros, pandeireiros e responsáveis, e ofereceu a recepção que faz da viagem algo mais que deslocamento: faz dela peregrinação. Em cada gesto, em cada abraço de irmão moçambiqueiro reencontrado, em cada prato servido com presteza, ficou visível o compromisso de Cotia com a cultura nacional e, em especial, com as manifestações afro-brasileiras que constituem o patrimônio vivo do país.

É curioso pensar que a chuva, longe de atrapalhar, acabou por dar à apresentação uma camada a mais de significado. Porque o Moçambique não é dança de palco com céu controlado. É manifestação de chão, de pé na terra, de corpo exposto ao tempo. Os antigos, mestres como João Roque da Silva, Benedito José Barbosa e tantos outros que abriram caminho para o grupo nascer antes de 1981, já dançaram debaixo de sol forte, de garoa, de poeira e de lama. O Moçambique acontece onde a fé chama. E em Cotia, no domingo, ele aconteceu sob a chuva fina, com os pés molhados batendo firme no chão úmido, como quem sabe que devoção não pede licença ao clima.


Houve quem tirasse foto, houve quem cantasse junto, houve quem se emocionasse ao reconhecer um verso aprendido há décadas. Houve as crianças do grupo, descobrindo na prática que ser moçambiqueiro é também isso: viajar, ser recebido, dançar para quem nunca viu, e perceber que a fé em São Benedito atravessa fronteiras municipais sem precisar de passaporte. Houve os mais velhos, lembrando da primeira ida a Cotia, em 1983, e calculando, com a tranquilidade de quem mede a vida pelas festas vividas, quantas gerações já passaram por aquele mesmo terreiro.


Voltamos para Lorena no fim do dia, com as roupas ainda úmidas e o coração quente. Quarenta e três anos de Cotia. Quarenta e três anos de uma amizade que se renova a cada maio, num pacto silencioso entre dois grupos, duas cidades, dois jeitos de servir ao mesmo santo. Que venham os próximos. Que a chuva caia ou o sol queime, o terno de Lorena seguirá descendo a serra, porque o bastão precisa bater, e o São Benedito de Cotia precisa ver, ano após ano, que os irmãos do Vale do Paraíba não esquecem o caminho.


A próxima jornada já está sendo costurada no horizonte. Por ora, fica o agradecimento sincero da Associação Moçambique de São Benedito de Lorena, AMOSBE, a todos os organizadores da Festa da Congada de Cotia, à família de Seu Dito da Congada, à comunidade da Vila São Joaquim e a cada irmão e irmã que, mesmo sem saber, ajudou a manter viva essa ponte que liga, há setenta e cinco anos, a memória negra do Brasil ao chão onde ela continua a florescer.



 
 
 

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