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O Moçambique também se ensina nas páginas: AMOSBE recebe a coleção Black Power e abre oficina de leitura com as crianças do grupo

Trinta e seis livros doados pelo secretário Diego Amaro de Almeida, com apoio da Editora Mostarda, somam-se ao acervo do grupo e já inspiram uma tarde de leitura e desenho com a meninada que carrega a tradição em Lorena.


Nos dias 20 e 21 de junho de 2026, a Associação Moçambique de São Benedito de Lorena (AMOSBE) viveu dois dias que reúnem aquilo que, no Moçambique, nunca esteve separado: a devoção, a memória e a formação dos que vêm depois. No sábado chegaram às mãos da irmandade as trinta e seis obras da coleção Black Power, da Editora Mostarda; no domingo, esses mesmos livros já estavam abertos sobre a mesa, lidos e coloridos pelas crianças do grupo.


A coleção foi doada pelo professor Diego Amaro de Almeida, secretário da AMOSBE, que contou com um desconto importante concedido pela própria Editora Mostarda, gesto que viabilizou a aquisição. São trinta e seis títulos que apresentam, de forma criativa e lúdica, com ilustrações de rara beleza, figuras negras que marcaram seus nomes na história do Brasil e do mundo. Mais do que enriquecer o acervo, esses personagens chegam com uma função clara: auxiliar na educação das crianças e dos jovens que fazem parte da comunidade moçambiqueira.


No domingo, dia 21, o acervo recém-chegado já cumpria seu propósito. A oficina de leitura e desenho reuniu a meninada do grupo em torno de histórias que lhes diziam respeito. Entre as leituras estavam o Jongo e o Maracatu, expressões irmãs da cultura negra brasileira, e a biografia de Luiz Gama, abolicionista, poeta e uma das maiores vozes negras do Brasil no século XIX, figura que guarda relações com o próprio município de Lorena.


O método partiu do chão conhecido. A partir das experiências prévias das crianças, a leitura abriu espaço para que elas mesmas reconhecessem o que há de semelhante entre aquelas páginas e a vida do grupo. Na hora de desenhar, escolheram imagens das igrejas da região e do próprio Moçambique, e foram capazes de reconhecer, nas ilustrações, membros da irmandade que conhecem de perto. O aprendizado, afinal, ganha outro alcance quando parte do contexto: as relações que as crianças estabeleceram, entre o texto lido e as imagens que coloriram, revelaram a compreensão do que liam e viam.


A iniciativa escancara uma dimensão da AMOSBE que às vezes fica à sombra do tambor e da dança. Além de formar no ritmo das caixas, no canto e no gingado, a associação se ocupa de uma educação capaz de empoderar esses jovens. São eles, presente e futuro do grupo, a garantia de que as ações da irmandade terão continuidade.


O acervo, agora mais rico, segue à disposição de quem chega para aprender. E a tarde de leitura, com seus desenhos de igrejas e de gente conhecida, deixa claro que a transmissão do Moçambique não se faz apenas no terreiro: faz-se também na página aberta, na pergunta da criança, no nome negro que ela descobre e reconhece como seu. A próxima geração de dançantes já está lendo a própria história.



 
 
 

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