Moçambique de São Benedito de Lorena cria acervo físico e o batiza em homenagem a Ícaro Leandro da Silva
- Diego Amaro de Almeida
- 7 de jun.
- 3 min de leitura
Moçambique de São Benedito de Lorena cria acervo físico e o batiza em homenagem a Ícaro Leandro da Silva
A Associação Moçambique de São Benedito de Lorena (AMOSBE) iniciou a organização de seu primeiro acervo físico, espaço destinado a reunir e preservar obras ligadas à história da irmandade, da cultura afro-brasileira e da diáspora africana. O conjunto recebeu o nome de Acervo Ícaro Leandro Pires da Silva, em homenagem ao saudoso integrante do grupo, filho dos Mestres Bira e Guiomar e neto dos Mestres João Roque da Silva e Benedito Barbosa.
A escolha do nome carrega significado profundo. Ícaro foi, por muitos anos, presença firme e silenciosa no Moçambique, mestre da bateria e aquele que cuidava dos instrumentos como quem cuida de relíquias. Sua partida prematura, em 2021, aos 36 anos, deixou uma ausência que o grupo decidiu transformar em legado vivo. Dar seu nome ao acervo é, de certa forma, manter Ícaro onde ele sempre esteve: no centro da memória da irmandade.

A iniciativa partiu da diretoria da AMOSBE, que vem conduzindo o trabalho de catalogação e cuidado com os materiais. A ideia, segundo o grupo, é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: criar um espaço capaz de reunir obras que auxiliem pesquisadores, estudantes e os próprios moçambiqueiros no resgate e na divulgação da história da cultura brasileira, da cultura afro-brasileira e dos caminhos da diáspora africana.
O acervo é formado por livros, revistas, jornais, fotografias, fitas VHS, DVDs e outros materiais reunidos pelos mestres do grupo ao longo de sua própria história. A esse núcleo somam-se doações de Aurélio de Castro Figueiredo, Camila dos Santos Diniz, Diego Amaro de Almeida, Douglas Rodrigues da Silva, Giovani José da Silva, Luís Henrique Guimarães e de outras pessoas que, assim como a associação, reconhecem a importância de salvaguardar essa memória e de torná-la acessível.
Entre os títulos já incorporados há obras infantis, biografias e livros raros, como os de Maria de Lourdes Borges Ribeiro, folclorista que foi uma das pioneiras nos estudos do Moçambique, do Jongo e das Congadas. Não por acaso, foi ela uma das pesquisadoras que ajudaram a documentar a presença dessas manifestações no Vale do Paraíba, território onde o Moçambique de Lorena fincou raízes.
O acervo, porém, não se limita à temática afro-brasileira. Reúne também materiais sobre a história nacional e mundial, numa escolha deliberada da irmandade. A compreensão que orienta o projeto é a de que nada do que foi justo ou injusto deve ser esquecido: conhecer as injustiças é o melhor caminho para contê-las, e recordar aquilo que foi justo é o que dá inspiração para continuar, avançar e agir.
Ainda em estágio embrionário, o Acervo Ícaro Leandro da Silva já aponta para frutos concretos. A diretoria projeta ações que ampliem o acesso ao conhecimento, levando a muitos aquilo que antes estava restrito a poucos. A constituição do acervo é também o alicerce de um grupo de estudos que a associação pretende iniciar a partir do próximo semestre, abrindo espaço para o encontro entre a tradição vivida e a pesquisa.
Mais do que uma estante organizada, o que nasce em Lorena é um gesto de cuidado com a própria história. Um lugar onde os tambores, os versos e os nomes que fizeram o Moçambique encontram abrigo, prontos para serem lidos, estudados e transmitidos às novas gerações. Porque preservar o Moçambique, como ensina a irmandade, é preservar a dignidade, a memória e a esperança de um povo.



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