top of page

O olhar de fora que fortalece a casa: estudantes do UNISAL estudam o Moçambique de São Benedito de Lorena

Projetos Integradores do 1º período de Administração levaram jovens à sede da irmandade, em diálogo com o Mestre Bira e a Dona Guiomar. O trabalho integrou a Mostra de Responsabilidade Social, apresentada na Unidade de Lorena nos primeiros dias de junho.


Houve um dia em que a sala de aula veio bater à porta do Moçambique. Não com pauta de prova nem com a pressa de quem cumpre tabela, mas com a curiosidade franca de quem quer entender o que mantém uma irmandade de pé há mais de quatro décadas. Estudantes do primeiro período do curso de Administração do UNISAL, Unidade de Lorena, estiveram na sede da Associação Moçambique de São Benedito de Lorena (AMOSBE) para conhecer de perto a casa, ouvir suas lideranças e investigar, com método e com afeto, aquilo que os manuais de gestão raramente alcançam: a força de uma cultura que se sustenta na fé, na memória e no compromisso entre gerações.


A visita fez parte dos Projetos Integradores, atividade em que os calouros de Administração foram desafiados a estudar instituições do terceiro setor do Vale do Paraíba dedicadas à preservação da memória, da história, da cultura, das artes e do meio ambiente. Ao lado do Moçambique de São Benedito de Lorena, foram contempladas o Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), a Academia de Letras de Lorena, o IACAN (Instituto Artístico e Cultural Arte Mais, de Lorena e Pindamonhangaba), o Instituto Ruth Guimarães (Cachoeira Paulista), o Instituto Silveirarte (Silveiras) e a Fundação Christiano Rosa (Piquete). Um mosaico de guardiãs da cultura regional, cada qual com sua história e suas urgências.


Nesta primeira etapa, os alunos conheceram as instituições, realizaram entrevistas, fizeram visitas e conduziram estudos que permitiram mapear pontos fortes e demandas. No próximo semestre, a turma deve avançar com propostas de solução, fechando um ciclo que une formação acadêmica e devolução à comunidade. O trabalho foi orientado pelo Prof. Me. André Luiz Ortiz Pirtouscheg, com o apoio do coordenador Prof. Me. Marcos Aurélio Correa dos Santos, e foi apresentado dentro da programação da Mostra de Responsabilidade Social do UNISAL.


Gestão também é memória

Na sede da irmandade, os estudantes dialogaram com o Mestre Bira, Geraldo Ubirajara da Silva, e com a Dona Guiomar, Guiomar Aparecida Pires da Silva, duas das principais lideranças do grupo. Não foi um encontro qualquer. Diante dos jovens estavam dois guardiões cuja vida se confunde com a própria história do Moçambique: Bira, filho do Mestre João Roque da Silva e herdeiro natural e espiritual da tradição; Guiomar, neta e filha de criação de Benedito José Barbosa, um dos fundadores, presente no grupo desde o seu nascimento, em 1981. Juntos, costuram bandeiras e uniformes, organizam festas e esmolagens, acolhem integrantes e mantêm acesa, com mãos calejadas e bastão firme, a chama de uma devoção que atravessa o Vale do Paraíba.


Os alunos perguntaram muito. Quiseram saber dos detalhes, das jornadas, dos modos de organização interna que sustentam uma associação cultural. E, ao buscar os dados que poderão ajudar a irmandade em suas dores institucionais, acabaram levando para si algo que nenhum questionário captura por inteiro: o entendimento da cultura moçambiqueira. Na fala de cada um deles, ficava evidente o carinho que passaram a nutrir por essa história.


O depoimento de quem estava dos dois lados

A experiência teve um observador privilegiado. Diego Amaro participou da atividade na qualidade de professor avaliador, mas, sobretudo, como Secretário da AMOSBE e integrante de outras instituições envolvidas no projeto, entre elas o IEV, a Academia de Letras de Lorena, o Instituto Silveirarte e o Instituto Ruth Guimarães. Estar nos dois lados, da banca e da casa, deu a ele uma perspectiva rara sobre o que ali se passou.


"Na avaliação, percebi como é importante esse olhar externo. Mas, sem dúvida, o mais interessante foi notar o engajamento dos alunos e a relação que criaram para além do próprio processo formativo, algo que eles também perceberam, ao poder, desde o primeiro ano, aplicar ferramentas e ver os resultados surgindo", relata.


Como membro das instituições estudadas, a emoção foi outra. "Foi muito bom ver o olhar de fora, o olhar desses jovens que, em sua grande maioria, não conheciam essas casas. Acredito que, assim como o UNISAL, que desde 1952, quando o Padre Leôncio deu seus primeiros passos rumo àquilo que hoje chamamos de extensão, vem semeando esse compromisso, outras instituições possam se inspirar", afirma Diego.


Sobre a passagem da turma pelo Moçambique, o secretário resume o que sentiu: "Eles dialogaram com o Mestre Bira e a Dona Guiomar, buscaram conhecer o máximo de detalhes e, além dos dados que vão nos ajudar, tomaram para si o entendimento da nossa cultura. Na fala deles, ficava claro o carinho que demonstram por nossa história."


Galuber, Melissa, Larissa e Layla - Alunos do 1º Período do Curso de Administração do UNISAL e o Prof. Diego Amaro
Galuber, Melissa, Larissa e Layla - Alunos do 1º Período do Curso de Administração do UNISAL e o Prof. Diego Amaro

Universidade, humanização e justiça social


O trabalho dos calouros desembocou na Mostra de Responsabilidade Social do UNISAL, ação institucional realizada simultaneamente nas três unidades da instituição (Americana, Campinas e Lorena). A programação ocorreu entre os dias 1º e 3 de junho de 2026 e teve como tema central "Universidade, humanização e justiça social: educar para transformar". Na Unidade de Lorena, a iniciativa se organiza em torno do IV Simpósio de Ciência, Cultura e Extensão, com a Mostra acontecendo no dia 1º de junho e os Projetos Integradores apresentados nos dias 2 e 3 de junho. A atividade é gratuita e aberta ao público, ampliando o acesso da comunidade externa às ações desenvolvidas pela universidade.


Não é detalhe menor que o encontro tenha se dado sob esse mote. Estudar o Moçambique de São Benedito de Lorena é, no fundo, estudar humanização e justiça social em sua forma mais concreta: a de um povo negro que, das irmandades coloniais aos dias de hoje, fez da devoção a um santo negro um território de sociabilidade, resistência e dignidade. Para os futuros administradores, a lição é dupla. Aprende-se que toda instituição precisa de organização, planejamento e sustentabilidade; e aprende-se, ao mesmo tempo, que há patrimônios cuja contabilidade não cabe em planilha, porque se medem em fé, em ancestralidade e em pertencimento.


A semente que continua


A primeira etapa terminou, mas a relação ficou. O Moçambique segue sua jornada, com os ensaios, as esmolagens e a preparação para a festa de São Benedito, e agora conta também com o olhar atento de jovens que, antes desconhecidos da casa, passaram a torcer por ela. No próximo semestre, quando a turma retornar com propostas de solução, a parceria entre a universidade salesiana e a irmandade lorenense deve ganhar novos contornos.

Fica o convite, à comunidade e a quem queira somar, para acompanhar e fortalecer a vida do Moçambique de São Benedito de Lorena. Como ensina a própria tradição, quem planta com o coração colhe continuidade. E, neste encontro entre a sala de aula e a sede da irmandade, ficou plantada mais uma semente de memória.

 
 
 

Comentários


  • Facebook

©2022 por Moçambique de Lorena. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page